Esteatose hepática e a doença hepática gordurosa não alcoólica

A Doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) é um termo que abrange doenças do fígado caracterizadas pelo acúmulo de triglicerídeos (¨gordura¨) em indivíduos que praticamente não ingerem bebidas alcóolicas. Essa entidade possui um amplo espectro de apresentação clínica — sendo a esteatose hepática o de menor gravidade. A DHGNA está se tornando cada vez mais prevalente no mundo; no Brasil, estima-se que 20% da população seja acometida por essa condição.

Uma vez que uma pessoa desenvolva esteatose hepática, alguns podem evoluir para uma forma mais agressiva da doença — a esteatose-hepatite não alcóolica (EHNA). Essa última é caracterizada pela intensa atividade inflamatória no parênquima hepático, que pode levar a fibrose do fígado e, consequentemente, a cirrose. Portanto, a DHGNA é tão lesiva ao fígado quanto o uso abusivo de bebidas alcoólicas.

Estima-se que 5% a 12% dos casos de EHNA evoluirão para cirrose hepática. Ainda, atualmente, sabe-se que grande parte dos casos de cirrose criptogênica têm relação com a EHNA. Nos EUA e no Reino Unido a cirrose pela DHGNA já se destaca entre as três primeiras indicações de transplante de fígado. Também, a DHGNA é um fator de risco conhecido para o desenvolvimento do carcinoma hepatocelular (o câncer primário do fígado).

Em estágios ainda iniciais da doença, os pacientes com DHGNA podem ser assintomáticos ou apresentar sintomas inespecíficos, como fadiga, dores ou desconforto no andar superior do abdômen. Quando o paciente desenvolve EHNA e evolui para estágios avançados de doença hepática, como a cirrose, ele poderá apresentar ascite (aumento de volume abdominal por acúmulo de líquido), varizes esofágicas (vasos colaterais no esôfago que podem romper e levar a sangramentos digestivos importantes), icterícia (olhos e pele de coloração amarelada), encefalopatia hepática (esquecimento, tremores, confusão mental) e câncer no fígado.

Embora a fisiopatologia da DHGNA primária ainda seja pouco conhecida, diversos fatores que predispõe ao desenvolvimento dessa doença já são bem estabelecidos. O componente multifatorial relacionado ao estilo de vida, em especial a dieta e o sedentarismo, contribuem para essa condição e há também a possível participação de características genéticas.

A DHGNA está intimamente relacionada com o sobrepeso, a obesidade, a resistência à insulina (quando as células não absorvem o açúcar do sangue em resposta ao estímulo hormonal da insulina), ao diabetes mellitus tipo 2, a hipertrigliceridemia (aumento dos níveis de triglicérides no sangue) e a hipercolesterolemia (aumento dos níveis de colesterol no sangue). Todos esses fatores em conjunto promovem o acúmulo de gordura no fígado. Além desses, outros fatores de risco estão relacionados a DHGNA, como a síndrome do ovário policístico, a apneia do sono, o hipotireoidismo e o hipopituitarismo.

Para diferenciar os diferentes graus de DGHNA, a biópsia do fígado é o exame padrão ouro, porém sua realização em todos os pacientes não é viável e nem isenta de riscos. Assim, o método de imagem mais utilizado para identificação dos pacientes com esteatose hepática — por ser mais prático e simples de ser realizado — é o ultrassom de abdômen, especialmente em casos de esteatose maior que 30%. Nos casos de esteatose mínima, a ressonância magnética com espectroscopia ou ressonância magnética de última geração são exames mais sensíveis. A associação de testes bioquímicos laboratoriais com a avaliação da elasticidade hepática, através do Friboscan por exemplo, pode constituir uma melhor forma de avaliação da fibrose hepática desses pacientes.

Por fim, em relação ao tratamento dessa doença, o primeiro ponto de atuação é na perda de peso. Isso pode ser atingido através da combinação de uma dieta saudável e balanceada e da realização de atividade física. Também, deve-se ter atenção ao tratamento das doenças associadas, como, por exemplo, o diabetes e a hipertensão arterial.  Devido as muitas limitações em relação a medicações específicas para essa condição, a mudança de estilo de vida é fundamental. Nos casos de doença hepática avançada e com complicações como câncer primário do fígado, o transplante de fígado é o melhor tratamento.

Em resumo, a DHGNA é uma doença na qual a prevenção atua de maneira extremamente positiva e eficaz para todos os pacientes. Assim sendo, opte sempre por uma dieta saudável baseada em legumes, frutas, verduras, carnes brancas e alimentos com pouca gordura e açúcares, mantenha um peso adequado para sua estatura e faça atividade física regularmente.