Transplanta de Fígado

O transplante de fígado é o tratamento definitivo para a doença hepática crônica em estágio terminal, a falência hepática aguda (hepatite fulminante) e o câncer primário do fígado (carcinoma hepatocelular) — dentro de critérios pré-definidos. O procedimento consiste na substituição do órgão doente por um novo fígado, de doador falecido ou vivo. Usualmente o novo órgão é alocado na mesma posição do órgão antigo, no hipocôndrio direito (na parte superior direita do abdômen), e por isso é chamdo de transplante ortotópico de fígado.

O objetivo do transplante é melhorar a qualidade de vida do paciente e promover a cura da doença hepática, pela substituição por um órgão sadio. Atualmente, a meta dos serviços de transplante é que  85–90% dos pacientes transplantados sobrevivam um ano após o procedimento e que 75% deles sobrevivam até 5 anos.

A cirurgia é complexa e apresenta duração média estimada de 6 a 8 horas, podendo durar mais ou menos tempo a depender da presença de complicadores técnicos e/ou da severidade da doença hepática — por exemplo, pacientes com cirurgias prévias, retransplante, trombose de veia porta, entre outros.

A incisão é realizada no abdomên e seu formato dependa da preferência do cirurgião e, às vezes, da causa da doença hepática (como é o caso da doença policística do fígado, que pode demandar uma incisão mais ampla em alguns casos). Os dois tipos mais comuns de incisões são: Makuuchi (incisão em “L “invertido) e Mercedes (como o símbolo da marca Mercedez-benz). Vale ressaltar que essas incisões devem ser bem cuidadas para evitar infecções e hérnias abdominais, por isso também recomendamos o uso de cinta abdominal no pós operatório.

Em relação a técnica cirúrgica do transplante, destaque-se que o fígado está conectado a várias estruturas vitais do corpo e que precisam ser desconectadas e reconectadas no novo fígado durante o transplante. Essas estruturas são:

  • Veias Hepáticas;
  • Veia Porta;
  • Artéria hepática;
  • Via biliar (Às vezes será necessário colocar um dreno dentro da via biliar, chamado de T-tube, isso ocorre mais frequentemente se o órgão doado para você for um fígado bipartido).

Alguns pacientes precisarão ser submetidos a uma anastomose biliodigestiva para a reconstrução da via biliar. Nesse procedimento a via biliar do novo fígado será conectada a uma alça de intestino, a qual por sua vez será conectada a outra alça intestinal para reestabelecer o trânsito de alimentos e suco biliopancreático. Esse procedimento será indicado usualmente em transplantes por doenças específicas da via biliar (por exemplo, colangite esclerosante primária), retransplantes e/ou casos selecionados onde haja indicação técnica avaliada no intraoperatório.

Todos os pacientes saem da cirurgia com um dreno abdominal — tubo que estará com uma de suas extremidades dentro do abdômen e a outra fora, para avaliar aspecto e quantidade dos fluidos que podem se acumular dentro do abdômen no período pós-operatório. Em resumo, ele irá vigiar a saída de sangue, bile e/ou ascite.

Após a cirurgia, o paciente seguirá para a unidade de terapia intensiva (UTI), onde permanecerá até ter condições clínicas de alta para a enfermaria. O tempo de internação em UTI pode variar a depender do quadro clínico e evolução do paciente no pós-operatório. Após o período de UTI, todos os pacientes irão para a enfermaria por uma média de mais 5-7 dias, também a depender da evolução no pós-operatório. Exames laboratoriais, aferição seriada frequente de sinais vitais e reavaliação clínica seriada são cruciais durante toda a internação.

Apesar de uma alternativa terapêutica curativa que apresenta excelente sobrevida, vale destacar que o procedimento não é isento de possíveis complicações.

Quais as possíveis complicações do Transplante?

  • Infecções: Os tipos de infecções mais comum nos primeiros dias após o transplante são: pneumonia, infecção urinária e infecção de ferida operatória;
  • Disfunção primária de enxerto, problemas vasculares e necessidade de retransplante: Existe a chance de o novo fígado não funcionar adequadamente, o que pode complicar a condição clínica do paciente a um estado muito grave e que pode ser irreversível. Isto ocorre em 1–2 % dos casos e o retransplante é a única alternativa para essa complicação. Outras complicações importantes são: possibilidade de trombose da artéria hepática e da veia porta. Essas últimas também ocorrem em uma pequena quantidade de pacientes mas podem demandar uma reoperação, procedimentos de radiologia intervencionista ou até mesmo retransplante para solucionar o problema;
  • Rejeição: O corpo reconhece o novo fígado como um corpo estranho e por isso episódios de rejeição são muito comuns pós transplante hepático, sendo na maioria das vezes nos primeiros 7–10 dias do após a cirurgia — mas também podem ocorrer após esse período. Em 90 % dos casos, essa complicação facilmente se resolve com medicações;
  • Sangramento e disfunção renal: Sangramento no pós-operatório imediato pode ocorrer, demandando, em uma porcentagem considerável dos casos, reoperação para corrigi-lo. Muitos pacientes podem apresentar disfunção renal no período pós-operatório, necessitando de hemodiálise por algum tempo. Normalmente, a função renal é recuperada com o tempo;
  • Recorrência da doença no fígado transplantado: Hepatites B e C podem retornar e afetar o novo fígado transplantado, mas isso atualmente é muito raro porque as medicações contra essas doenças são muito eficazes. Se a indicação do transplante for câncer no fígado, este pode retornar no seu novo fígado transplantado — por isso existem indicações específicas para o transplante. Pacientes que foram transplantados por doenças autoimunes (por exemplo, colangite esclerosante primária) podem apresentar recorrência da doença;
  • Complicações biliares: Podem existir problemas com as vias biliares tanto nos primeiros dias após a cirurgia como também após anos do transplante. Dentre elas: fístula e estreitamento da anastomose. Para a correção dessas complicações, muitas vezes serão preciso procedimentos endoscópicos com passagem de stents ou drenos. Raramente, a realização de uma nova cirurgia será a melhor opção.

Cabe ressaltar, atualmente todos os pacientes transplantados deverão tomar medicações imunossupressoras por toda a vida com o objetivo de evitar rejeição. Essas medicações podem apresentar efeitos colaterais, como risco aumentado para infecções, desenvolvimento de diabetes mellitus, hipertensão arterial, hipercolesterolemia e disfunção renal em graus variados. Após muito tempo de uso dessas medicações, existe também um risco pequeno de desenvolver algumas doenças malignas como por exemplo, alguns tipos de câncer de pele, leucemia/linfoma, entre outros. A prática de atividades físicas regulares no pós-operatório e os cuidados gerais (incluindo a alimentação e a prevenção dessas condições) são importantes mitigadores do desenvolvimento de vários desses efeitos colaterais.

A sobrevida após o transplante de fígado e o sucesso da cirurgia dependerá de inúmeros fatores como as características do órgão recebido, as condições clínicas na hora do transplante, as complicações durante a recuperação, os cuidados em casa, o uso correto das medicações, o acompanhamento com a equipe de transplante, o apoio e o amor de seus familiares e — por último porém não menos importante — a motivação e positividade do paciente com a sua própria recuperação.

Como funciona a lista de espera para transplante de fígado e o processo de doação de órgãos de doadores falecidos

A lista é organizada de acordo com o tipo sanguíneo (A, B, AB e O) e a pontuação obtida em uma escala de graduação da severidade da doença hepática. o MELD-Na (Model for End-Stage Liver Disease). A distribuição dos órgãos será realizada pelas centrais estaduais e nacional de transplante de órgãos às equipes transplantadoras, respeitando a fila pela severidade da doença de cada indivíduo e dados fornecidos na ficha de inscrição preenchida e assinada na inscrição. Ainda, são considerados características semelhantes entre doador e receptor, como peso e altura.

O MELD é uma fórmula matemática que utiliza os exames de sangue (creatinina, bilirrubina total, sódio e relação normatizada internacional da atividade de protrombina) para identificar os pacientes que têm mais chance de falecer em um curto período. Quanto mais alto o MELD, mais severa é a doença hepática e, consequentemente, mais grave a condição clínica do paciente, revelando a necessidade de transplantar o mais breve possível. Em pacientes com MELD iguais, o critério de desempate é o tempo de espera na fila para o transplante.

Checando sua posição na Lista de Transplante de Fígado: Tenha em mãos seu Registro Geral da Central de Transplantes (RGCT), que deverá ser obtido na Central de Transplantes ou com seu médico no dia da consulta.  Verifique sua posição pela Internet, no endereço: http://www.saude.sp.gov.br/ses/perfil/cidadao/homepage/acesso-rapido/lista-de-espera-para-transplantes

Com relação aos doadores falecidos, estes são pacientes que apresentam morte cerebral e que manifestaram em vida aos seus familiares o desejo de se tornarem doadores de órgãos (a doação apenas será efetivada com uma autorização assinada pela família). Assim como o fígado, muitos órgãos e tecidos do corpo podem ser doados e beneficiar muitas pessoas que necessitam de um transplante.